"Nosso sargento, já viu aquilo, exclamou um dos soldados, até parece que ela tem olhos, Os cegos aprendem depressa a orientar-se, explicou, convicto, o sargento."
"Devagar, o marido e o primeiro cego iam andando na direcção da porta, paravam para recolher, de uma lado e do outro, o que cada um tinha para entregar, alguns protestavam que estavam a ser vergonhosamente roubados, e era uma pura verdade, outros desfaziam-se do que possuíam com uma espécie de indiferença, como se pensassem que, vistas bem as coisas, não há nada no mundo que em sentido absoluto nos pertença, outra não menos transparente verdade."
"E quando é que é necessário matar, perguntou a si mesma enquanto ia na direcção do átrio, e a si mesma respondeu, Quando já está morto o que ainda é vivo. Abanou a cabeça, pensou, E isto que quer dizer, palavras, palavras, nada mais."
"Estou aqui, disse ela, e foi para ele, e abraçou-o, sem reparar que o manchava de sangue, ou reparando, não tinha importância, até hoje têm partilhado tudo."
"Estou aqui, disse ela, e foi para ele, e abraçou-o, sem reparar que o manchava de sangue, ou reparando, não tinha importância, até hoje têm partilhado tudo."
"Que se saiba só têm uma pistola, e os cartuchos não vão durar-lhes para sempre, Com os que têm morrerão alguns de nós, Outros já morreram por menos, Não estou disposto a perder a vida para que os mais fiquem cá a gozar, Também estarás disposto a não comer se alguém vier a perder a vida para que tu comas, perguntou sarcástico o velho da venda preta, e o outro não respondeu."
"Que fazemos, Vamos lá, tornou a dizer o velho da venda preta, vamos ao que estava decidido, ou é isso, ou ficamos condenados a uma morte lenta, Alguns morrerão mais depressa se formos, disse o primeiro cego, Quem vai morrer, já está morto e não o sabe, Que temos de morrer, sabemo-lo desde que nascemos, Por isso, de uma certa maneira, é como se já tivéssemos nascido mortos, Deixem-se de conversas inúteis, disse a rapariga dos óculos escuros, eu sozinha não posso lá ir, mas se agora começamos a dar o dito por não dito, então deito-me na cama e deixo-me morrer, Só morrerá quem tiver os dias contados, ninguém mais (...)"
"As mulheres ressuscitam umas nas outras, as honradas ressuscitam nas putas, as putas ressuscitam nas honradas, disse a rapariga dos óculos escuros."
"Assim como o hábito não faz o monge, também o ceptro não faz o rei, esta é uma verdade que convém não esquecer."
"(...) está visto que aqui já ninguém se pode salvar, a cegueira também é isto, viver num mundo onde se tenha acabado a esperança."
"(...) não tardaríamos a perceber que nós, os cegos, por assim dizer, não temos praticamente nada a que possamos chamar nosso, a não ser o que levamos no corpo (...)"
"E as pessoas, como vão, perguntou a rapariga dos óculos escuros, Vão como fantasmas, ser fantasma deve ser isto, ter a certeza de que a vida existe, porque quatro sentidos o dizem, e não a poder ver (...)"
"Não, essa já se acabou, respondeu a velha com um súbita expressão de desconfiança nos olhos cegos, modo de dizer que que nestas situações sempre ocorre empregar, mas que em verdade nada tem de rigoroso, porque os olhos, os olhos propriamente ditos, não têm qualquer expressão, nem mesmo quando foram arrancados, são dois berlindes que estão para ali inertes, as pálpebras, as pestanas, e a sobrancelhas também, é que têm de encarregar-se das diversas eloquências e retóricas visuais, porém a fama têm-na os olhos (...)"
"(...) como a vida é frágil, se a abandonam."
"Não havendo testemunhas, e se as houve não consta que tenham sido chamadas a estes autos para nos relatarem o que se passou, é compreensível que alguém pergunte como foi possível saber que estas coisas sucederam assim e não doutra maneira, a resposta a dar é a de que todos os relatos são como os da criação do mundo, ninguém lá esteve, ninguém assistiu, mas toda a gente sabe o que aconteceu."
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