"...talvez por terem nos nomes a mesma primeira letra, não é raro juntarem-se as pessoas por acasos desses, quem sabes se não foi por esta precisa razão que se uniram algumas que conhecemos, como Blimunda e Baltasar, que, diga-se a propósito, falamos de Baltasar, é boieiro de uma das juntas que vão puxando S. João de Deus, único santo português da confraria desembarcada da Itália em Santo António do Tojal e que vai, como quase tudo de que se fala nesta história, a caminho de Mafra."
"Não é Oriana em seu traje de corte que se está despedindo de Amadis, nem Romeu que, descendo, colhe o debruçado beijo de Julieta, é somente Baltasar que vai ao Monte Junto remediar os estragos do tempo, não é mais que Blimunda impossivelmente tentando que o tempo pare. Com as suas vestes escuras, são duas sombras inquietas, mal se separam, logo se aproximam, não sei que adivinham estes, que outros casos se preparam, por ventura será tudo obra da imaginação, fruto da hora e do lugar, de sabermos que o bem não dura muito, não demos por ele quando veio, não o vimos quando esteve, damos-lhe pela falta quando partiu..."
"Grita outra vez, Baltasar, agora por força a ouvirá ele, não há montes de permeio, apenas uns covões, se pudesse parar ouviria certamente o grito dele, Blimunda, está tão certa de tê-lo ouvido que sorri, com as costas da não enxuga o suor ou as lágrimas, ou talvez esteja a dar um jeito aos cabelos, ou a limpar a cara suja, é um gesto de tão vário sentido."
"Então Blimunda disse, Vem. Desprendeu-se a vontade de Baltasar Sete-Sóis, mas não subiu para as estrelas, se à terra pertencia e a Blimunda."
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